I Festival de filmes de pesquisa sobre a memória da escravidão moderna

Mostra Internacional Itinerante/ Rio de Janeiro 2008. Universidade Federal Fluminense / Centro Cultural Banco do Brasil. 24 e 28 de novembro de 2008

Em tempos de transformações com a eleição Barack Hussein Obama, o primeiro presidente negro americano, e das discussões geradas pela comemoração do Dia da Consciência Negra em 20 de novembro, a Universidade Federal Fluminense e o Centro Cultural Banco do Brasil vêm aquecer o tema recebendo a jornada de encerramento do primeiro Festival de Filmes Digitais de Pesquisa Universitária sobre Patrimônio e Memória da Escravidão Moderna, com mostra de filmes e mesa de debates, abordando questões políticas e culturais contemporâneas relacionadas à diáspora africana no Atlântico.

Este festival faz parte de uma Mostra Internacional Itinerante organizada pelo Centro Internacional de Pesquisa da Escravidão, sediado em Paris, pela Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, Senegal, pelo Instituto Harriet Tubman da Universidade de York, pela Cátedra de Pesquisa em História Comparada da Memória da Universidade de Laval, ambos no Canadá, e pelo Laboratório de História Oral e Imagem da UFF.

Nessa primeira edição, nove filmes foram selecionados. O festival itinerante iniciou-se em Toronto, na Universidade de York/Canadá, em abril de 2008. Em seguida, realizou-se na Universidade de Laval (Quebec, Canadá), em maio, e na Universidade Sheik Anta Diop, Dakar, em julho de 2008.  Durante o segundo semestre os filmes selecionados foram exibidos em Abidjan, na Costa do Marfim; Uagadugu, em Burkina Faso e na Ilha da Reunião, departamento francês.

A partir de 2009, o festival será competitivo, com júri formado por um membro de cada uma das cidades universitárias participantes da mostra, com entrega do prêmio no encerramento do festival no Brasil.

PROGRAMAÇÃO

24/11 – Universidade Federal Fluminense

Instituto de Ciências Humanas – Campus do Gragoatá, Bloco O, Niterói.

10h às 12h – História, Antropologia e Escrita Áudio-Visual em Ciências Sociais

● 10h – O Que Remanesceu – de Pedro Simonard e Flávio dos Santos Gomes (Universidade de Laval, Quebec, Canadá, e Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1997, português, 25 min).

● 10h30 – Buscapé. Um espaço para todos – de Francine Saillant (Universidade de Laval, Quebec, 2007, português, 30 min.).

● 11h – mesa redonda – História, antropologia e escrita áudio-visual em ciências sociais, com Francine Saillant, Pedro Simonard (Universidade de Laval, Quebec, Canadá),  Hebe Mattos e Martha Abreu (Universidade Federal Fluminense).

16h30 às 20h – A Escravidão Africana Além do Atlântico

● 16h – Ces Mémoires Là… – de Sudel Fuma (Universidade da Reunião, 2005, francês, 25 min)

● 16h30 – Slaves Routes and Oral Tradition in Southeastern Africa: History and Images – de Benigna Zimba (Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique, 2008, português/inglês, 34 min).

● 17h – Afro-Iranian Lives – de Behnaz Mirzai (Brock University, St. Catharines, Canadá, 2008, inglês, 46 minutos).

● 18h – mesa redonda – A escravidão africana além do Atlântico, com Alberto Costa e Silva (Academia Brasileira de Letras) e Mariza Soares (Departamento de História, Universidade Federal Fluminense).

28/11 – Centro Cultural Banco do Brasil (sala de cinema)

10h às 13h – Patrimônio e Espetáculo – O Jongo e a Memória da Escravidão na Serrinha e no Quilombo São José.

● 10h – Memórias do Cativeiro – de Hebe Mattos, Martha Abreu, Guilherme Fernandez e Isabel Castro (LABHOI-UFF, 2005, português, 48 minutos).

● 11h – Salve Jongo! – de Pedro Simonard (Universidade de Laval, Quebec, Canadá e Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2005, português, 25 minutos).

● 11h30 – mesa redonda – Patrimônio e espetáculo, com os realizadores e Zózimo Bobul (Centro Afrocarioca de Cinema).

14h às 19h – Memória da Escravidão, Cultura Negra e Política.

● 14h – Jongos, Calangos e Folias. Música Negra, memória e poesia – de Hebe Mattos e Martha Abreu (PETROBRAS/ LABHOI-UFF/Núcleo de Pesquisa em História Cultural/NUPEHC-UFF, 2007, português, 45 minutos).

● 15h – O Navio Negreiro – de Francine Saillant e Pedro Simonard (Universidade de Laval, Quebec, Canadá, português, 2008, 50 minutos).

● 16h – Lançamento do filme Axé Dignidade – de Francine Saillant e Pedro Simonard (Universidade de Laval, Quebec, Canadá, 2008, português, 51 min.). 

● 17h – mesa redonda – Cultura Negra e Política, com os realizadores e  Zózimo Bubul (Centro Afrocarioca de Cinema).

Sinopses:

O Que Remanesceu – de Pedro Simonard e Flávio dos Santos Gomes

Na região norte do Brasil, sobre rios de vários afluentes, existe certos lugares onde habitam comunidades quilombolas, descendentes de escravos. Ainda que estas comunidades estejam localizadas no meio da floresta, seus habitantes construíram laços comerciais e relações culturais com diversas outras pequenas vilas da região. O documentário apresenta as relações sociais e a cultura dessas populações pobres. Para caracterizar seus habitantes como descendentes de escravos, não basta procurar os elementos culturais de origem africana ou parar na cor da pele, é preciso antes compreender suas historias, memórias e identidades e, sobretudo, como eles se constroem hoje como comunidades quilombolas.

Buscapé. Um espaço para todos – de Francine Saillant

Apresenta uma forma de intervenção específica de uma ONG em Salvador, ligando dois grupos sociais (crianças em situação de risco social e portadores de deficiência). Ambos têm em comum o fato de pertencerem aos estratos mais pobres da sociedade e de serem afro-brasileiros. A intervenção consiste na preparação, durante vários meses, de um grupo carnavalesco alternativo ao carnaval oficial de Salvador e baseado nos elementos chaves da cultura afro-brasileira. O documentário apresenta os preparativos e a saída do grupo carnavalesco Buscapé.

Ces Mémoires Là… – de Sudel Fuma

O documentário mostra a memória da escravidão no Oceano Índico. Um habitante da Ilha da Reunião, descendente de uma família de escravos trazidos de Madagascar, se lembra do passado da ilha e do destino dos descendentes de escravos.

Slaves Routes and Oral Tradition in Southeastern Africa: History and Images – de Benigna Zimba

Edição de cerca de 300 imagens e pequenos filmes produzidos durante a última fase da pesquisa que resultou na publicação do livro de mesmo título (2005). Os países envolvidos são Moçambique, Mallawi, Tanzânia e Kenia. As imagens representam várias formas de testemunho oral, evidências arqueológicas e rituais tradicionais desenvolvidos por causa do recrudescimento do comércio de escravos na costa leste da África, durante os séculos 19 e 20. O vídeo é organizado em capítulos por países e a parte final enfatiza as similitudes entre eles.

Afro-Iranian Lives – de Behnaz Mirzai

A produtora e diretora Behnaz Mirzai nasceu e foi criada no Iran, tendo se mudado para o Canadá em 1997, onde fez o doutorado em história. O documentário é resultado de 10 anos de pesquisa em arquivos iranianos e europeus e de entrevistas e pesquisa de campo. O filme explora a história do tráfico de escravos africanos para o Irã, bem como as tradições de origem africanas presentes no país. Presta atenção particular às atividades sócio-econômicas, performances e rituais de descendentes de africanos escravizados em comunidades rurais e urbanas de quatro províncias: Sistan va Baluchistan, Hurmuzgan, Bushir e Khuzestan.

O filme permite visualizar o dia-a-dia de afro-iraniamos dispersos por diversas regiões ao sul do Golfo Pérsico, que, apesar disso, souberam preservar e misturar heranças culturais africanas com religiões e tradições locais. O documentário mostra tanto a diversidade da sociedade iraniana como a reconstrução da identidade das comunidades africanas no Irã.

Memórias do Cativeiro – de Hebe Mattos, Martha Abreu, Guilherme Fernandez e Isabel Castro

O documentário conta a história da última geração de escravos do mundo rural fluminense e dos caminhos de seus descendentes ao longo do século XX, bem como da força da memória familiar e da cultura negra entre eles. Tem como fio condutor a história e a memória dos moradores da comunidade remanescente de Quilombo de São José da Serra (Valença, RJ), base do grupo de Jongo do Quilombo São José, um dos solicitantes do reconhecimento do Jongo como patrimônio imaterial do Brasil.

Baseado no livro Memórias do Cativeiro. Família, trabalho e cidadania na pós-abolição, de Ana Lugão Rios e Hebe Mattos (2005) e nos depoimentos orais de descendentes de escravos depositados no Laboratório de História Oral e Imagem da UFF. http://www.historia.uff.br/labhoi

Salve Jongo! – de Pedro Simonard

O jongo é uma dança afro-brasileira desenvolvida por antigos escravos nas grandes fazendas cafeeiras do sudeste do Brasil no século XIX. Durante o século XX, a urbanização e a migração para as grandes cidades quase o fizeram desaparecer. No Rio de Janeiro, o jongo “sobreviveu” no Morro da Serrinha. No final dos anos 1960, o jongo estava em risco de desaparecimento quando Mestre Darcy, morador da comunidade, propôs modificações no jongo de modo a torná-lo mais acessível à classe média carioca, passando a fazer apresentações em teatros e casas de espetáculos, fora do território da favela. O documentário mostra as mudanças feitas pelo Mestre Darcy que transformaram o jongo em espetáculo.

Jongos, Calangos e Folias. Música Negra, memória e poesia – de Hebe Mattos e Martha Abreu

A história dos jongos, calangos e folias como patrimônios culturais é apresentada de forma associada à história social dos grupos que lhe dão suporte.

O filme coloca em destaque o papel da poesia negra em todas as três manifestações culturais e seu papel na legitimação política das comunidades remanescentes de quilombo do estado do RJ.  A primeira parte do filme refere-se ao litoral do estado, sul e norte, ponto de desembarque dos últimos africanos vindos como escravos no Brasil, e apresenta as comunidades quilombolas do Bracuí, em Angra dos Reis, e Rasa, em Búzios. A segunda parte sobe a Serra do Mar, chega ao Vale do Paraíba, o velho vale do café no século XIX, para onde se dirigiu a maioria dos recém chegados. Ali são entrevistados representantes das comunidades de Barra do Piraí, Quilombo São José da Serra e Duas Barras. A terceira e última parte, desce a serra, e atinge a Baixada Fluminense, especialmente Nova Iguaçu, Mesquita, Duque de Caxias  e São João do Meriti, para onde muitos dos descendentes dos últimos escravos se dirigiram, em diferentes momentos do século XX, na busca por melhores oportunidades de trabalho. Em todas as regiões apresentam-se as relações entre os jongos, calangos e folias de reis, como patrimônios familiares, com destaque para a poesia e os desafios presentes nestas manifestações. http://www.historia.uff.br/jongos

Axé Dignidade – de Francine Saillant e Pedro Simonard

Uma casa de candomblé na região metropolitana do RJ abre seu espaço para conduzir atividades sociais e espirituais que permitem aos habitantes da comunidade o acesso a uma vida melhor. O documentário mostra o cotidiano do bairro popular onde fica o terreiro, as intervenções da mãe de santo na sociedade civil, associando ancestralidade e direitos humanos, as atividades religiosas do terreiro e as lutas políticas em que seus membros estão implicados.

O Navio Negreiro – de Francine Saillant e Pedro Simonard

O documentário apresenta uma peça de teatro encenada num terreiro de candomblé do RJ que reconstrói a viagem e chegada dos escravos africanos no Brasil no interior de um navio negreiro. Trata-se de encenação pedagógica feita por crianças que freqüentam os cursos de cidadania do terreiro e por filhos e filhas de santo. Durante a encenação, a mãe de santo discursa explicando às crianças quem eram os escravos enviados ao Brasil, as diversas regiões da África de onde vieram e como as entidades do candomblé e diversas tradições culturais africanas vieram com eles no navio. O relato inverte a visão tradicional do escravo vítima, apresentando-o como sobrevivente e herói cultural.

Serviço:

Mostra: I Festival de Filmes de Pesquisa sobre Patrimônio e Memória da Escravidão Moderna

Local: Universidade Federal Fluminense e Centro Cultural Banco do Brasil

Datas e horários: de 24 e 28 de novembro (segunda e sexta-feira)

● 24/11 (segunda-feira) – Universidade Federal Fluminense – das 10hs às 18hs

Instituto de Ciências Humanas – Campus do Gragoatá, Bloco O, Niterói

● 28/11 (sexta-feira) – Centro Cultural Banco do Brasil (sala de cinema)  – das 10hs às 17hs

Capacidade: CCBB: 102 lugares mais 02 cadeirantes

Classificação: Livre

GRATUITO – tanto na UFF como no CCBB, sendo que neste último a retirada de senhas (uma por pessoa) será uma hora antes do evento na bilheteria, localizada no térreo.

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