Solos femininos estão de volta

Após o sucesso da temporada de 2007 e da indicação de Dani Barros para o Shell 2008 de melhor atriz, os Solos Femininos retornam para curta temporada de 15/2 a 30/3 no Teatro do Jockey

Sob a direção de Pedro Brício, as atrizes Isabel Cavalcanti e Dani Barros dão vida a dois textos ímpares, que abordam obsessão, violência, preconceito, sexualidade e tabus

Duas obras confessionais, narrativas em primeira pessoa, mergulham nas paixões, obsessões, violência e sexo do ser humano. São grandes romances da literatura brasileira contemporânea: O Caderno Rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst, e Acqua Toffana, de Patrícia Melo, que agora chegam ao formato dramatúrgico pela adaptação e direção de Pedro Brício, jovem e premiado autor/diretor, ganhador do Prêmio Shell de melhor autor por A incrível confeitaria do Sr. Pellica, de 2005. Os textos ganham voz nas interpretações elogiadas das atrizes Isabel Cavalcanti e Dani Barros, que desafiam o espectador a encarar todo o turbilhão de emoções que as duas autoras – com liberdade e humor transgressores – tiveram a audácia de escrever.

Os dois textos transitam entre fantasia e realidade – o caderno da menina, os livros do pai, os delírios assassinos do escriturário, o horror, a paixão. “São monólogos verborrágicos, são olhares sobre o feminino e são textos libertários e por isso mesmo, ameaçadores”, define Brício. “E terão um tratamento solar, para enfatizar ainda mais esse contraste”. Brício ressalta ainda que neste exercício de exposição e comunhão direta com o público as atrizes exercem profundamente a transfiguração – Isabel, mulher feita, torna-se uma menina de 8 anos e Dani, jovem delicada, um homem extremamente amargo e agressivo.

OS TEXTOS

O caderno Rosa de Lori Lamby, que Hilda Hilst definiu como “uma divertida bandalheira”, se embrenha pela sexualidade primitiva do ser humano na voz de uma menina de oito anos escrevendo seu diário. Sonhos e brincadeiras são, na verdade, peripécias e aventuras sexuais, descritas com uma embaraçosa naturalidade e a mais completa ausência de censura. Lori é filha de um escritor brilhante, atormentado pelas exigências do seu editor, que lhe pede textos “vendáveis”, com sexo explícito. O humor sofisticado e a naturalidade do discurso de Hilda Hilst, através das palavras carregadas de sexualidade de uma criança, nos confrontam com a nossa própria realidade interna cheia de culpa e embaraço. “Ali também se tem o retrato de uma preocupação de Hilda”, diz Isabel Cavalcanti. “Ela estabelece um diálogo com uma tradição da literatura erótica, de Bocage, de Anais Nin, de tantos escritores, onde a narradora é uma menina pura”.

Acqua Toffana é o primeiro romance da premiada escritora Patrícia Melo, repleto de humor negro e dor, que acompanha o relato de um homem obcecado com a sua vizinha, Célia, “de pés gordos”; ele planeja incontáveis e engenhosos métodos para assassiná-la – ou melhor, para matar a mediocridade que ela representa. A mistura de amor e morte aqui se instala com uma perturbadora clareza: o homem acaba se apaixonando pela vizinha, não desiste do seu intento, delira, parece que sempre fracassa. Patrícia Melo cria um labirinto narrativo, onde o trânsito angustiado é uma corda bamba entre a ficção ou realidade.

Confissões. De paixão, medo e desejo de sexo, de morte. O jogo literário sai do papel e pousa no centro do palco, cabendo ao espectador vaguear entre verdade e mentira, fantasia e realidade. É nessa cumplicidade que a empatia das obras salta de maneira tão dramática nessas duas obras tão teatrais.

Pedro Brício investiga mais uma vez o humor absurdo da existência “e a poesia dos nossos desejos impossíveis”: “As possibilidades dramáticas de Lori Lamby e Acqua Toffana reforçam a nossa pesquisa, colocando em cena a discussão das fronteiras entre teatro e literatura, comédia e drama, o encontro da intimidade da confissão com a cumplicidade com o público”.

FICHA TÉCNICA
Direção: Pedro Bricio. Diretora assistente: Guida Vianna
Adaptação: Pedro Brício com Isabel Cavalcanti (Lori) e Dani Barros (Acqua)
Cenários e figurinos: Rui Cortez. Iluminação: Tomás Ribas
Trilha Sonora: Lucas Marcier e Rodrigo Marçal. Preparadora Vocal: Letícia Carvalho. Produção: FOMENTA

SERVIÇO – SOLOS FEMININOS
“O caderno rosa de Lori Lamby”, de Hilda Hilts
Com Isabel Cavalcanti – estréia dia 15 de fevereiro – quintas e sextas, às 21h

“Acqua Toffana”, de Patrícia Mello
Com Dani Barros – estréia dia 17 de fevereiro – sábados e domingos, às 21h

Temporada de 15 de fevereiro até 30 de março
Local: Teatro do Jockey. Rua Mário Ribeiro 410, Jardim Botânico. Tel.: 2540 9853
Entrada de pedestres pela Rua Bartolmeu Mitre 1110. Metrô integração Gávea
Ingressos: $20 (inteira) e $10 (meia-entrada). Na compra dos dois solos: R$15
Classificação etária: 18 anos. Duração: 60 min. (cada peça) Capacidade: 110 lugares. Estacionamento gratuito no local. Acesso para deficientes

Após os espetáculos de sexta-feira, o público está convidado a participar do ciclo debate “Fronteiras e Limites”, com os seguintes temas: “Hilda Hiltz”, com a atriz e diretora Ana Kfouri (15/2); “O Ator e o Monólogo”, com o ator Sergio Britto (22/2); e “Pornografia e Arte” (29/2), com o psicanalista Potiguara Mendes da Silveira Jr

ZEPPELIN CIA – Fundada em 2003 pelo dramaturgo e diretor Pedro Bricio, pela atriz Isabel Cavalcanti, pelo diretor de arte Rui Cortez e pelo iluminador Tomás Ribas. Os espetáculos da cia têm se pautado na pesquisa de uma dramaturgia brasileira, contemporânea, que coloque em cena as contradições do homem do nosso tempo, sempre através de um olhar crítico e bem humorado. Depois de realizar dois espetáculos escritos por Pedro Brício, as comédias O Homem que era Sábado e A Incrível Confeitaria do Sr. Pellica, a Cia se volta para uma nova fase, feita de vozes e palavras de novos autores nacionais.

PEDRO BRICIO – Diretor, autor e ator – Prêmio Shell 2005 de Melhor Autor com A Incrível Confeitaria do Sr. Pellica. Graduado em Cinema (UFF) e Mestre em Teatro (UNIRIO). Estudou na Desmond Jones Scholl of Mime (Londres), na Scuola Internazionalle dell’atore Comico (Italia), e na École Philippe Gaulier (Londres). Em 2007 dirigiu o espetáculo “Fim de Partida”, de Samuel Beckett, estrelado por Guida Vianna (Espaço Sesc), e o projeto “Solos Femininos” – composto pelos monólogos “Acqua Toffana”, de Patrícia Melo, com Dani Barros (indicada ao prêmio Shell melhor atriz) e “O caderno rosa de Lori Lamby”, de Hilda Hilst, com Isabel Cavalcanti. Em 2005 escreveu e dirigiu A Incrível Confeitaria do Sr.Pellica (Espaço Cultural Sérgio Porto, Teatro Glória/ RJ – 2005. Sesc Santana/ SP – 2006), indicado a cinco prêmios Shell 2005. Em 2003, escreveu e dirigiu O Homem que era Sábado, (Mostra Nova Dramaturgia Carioca, no Teatro Jóquei e Teatro Cândido Mendes/ 2003; Mostra Fringe do Festival de Curitiba / 2004). Em 2002, dirigiu Blecautes, de Paul Auster (Sesc Tijuca, Sala Paraíso do Teatro Carlos Gomes). Em Cinema dirigiu o curta-metragem Moleque (co-direção Rosane Svartman e Eduardo Waisman), o vídeo Ganzá Golê, apresentado no Centro Cultural Banco do Brasil, e o vídeo Arn, sobre o espetáculo homônimo da Intrépida Trupe. Como ator trabalhou com diretores como Felipe Hirsch em A Morte de um Caixeiro Viajante, Enrique Diaz em Coletivo Improviso, Christiane Jatahy em A Falta que nos Move, Ana Kfouri em Volúpia e Gula, Gilberto Gawronski em A prece da donzela, Bia Lessa em Futebol, Maurício Paroni de Castro em Quem manda em mim?, João Falcão em A Ver Estrelas, entre outros. Lecionou mímica e teatro físico na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras). Trabalhou nas novelas Quem é você ?, Andando nas Nuvens e Desejos de Mulher, e na minissérie Hilda Furacão, da Tv Globo.

ISABEL CAVALCANTI – É atriz, diretora bissexta e professora de teatro. Graduada em Letras (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira (PUC) e Mestre em Teatro (UNIRIO). Pesquisa a obra de Samuel Beckett desde 1998. Autora do livro “Eu Que Não Estou Aí Onde Estou: O Teatro de Samuel Beckett” publicado em 2006(ed. 7letras). Em 2001 adaptou a novela Molloy, de Beckett, e dirigiu a atriz Ana Kfouri em Moi Lui, espetáculo baseado na novela. Entre 2000 e 2003, participou de Seminários sobre Beckett como debatedora e palestrante (no CCBB e na UNIRIO), ministrou aulas sobre o dramatugo na UNIRIO, CAL e no Sesc Tijuca. É co-curadora do Festival Beckett 100 Anos realizado em 2006 no Centro Cultural Telemar e no CCBB (RJ). Atriz formada pela CAL, estreou em 1991 em Os Gigantes da Montanha sob a direção de Moacyr Góes. Atuou durante 10 anos na Companhia Teatral do Movimento sob a direção de Ana Kfouri, recebendo indicação do Jornal o Dia de melhor atriz de 1992 por A Lua Que Me Instrua. Sob a direção de Ana Kfouri, atuou nos espetáculos “A Lua Que Me Instrua” (indicado para Prêmio Shell de Melhor Direção), “Dizem de Mim o Diabo”, “Aldeia”, “Volúpia” (indicado para o Prêmio Shell de Melhor Música), “Gula” (indicado para Prêmio Shell de Melhor Iluminação) e “O Gordo e o Magro vão Para o Céu”. Com O Gordo e o Magro Vão Para o Céu, participou do projeto “Palco Giratório”, do SESC. Atua na Zepellin Companhia desde 2003. Em 2004, estreou o monólogo “Senhora Coisa”, direção de Janaína Pessoa, no Teatro Café Pequeno. Em cinema, Isabel atuou no longa “Zoando na TV”, dirigido por José Alvarenga Jr (1999) e no curta Vox Populi, dirigido por Marcelo Lafitte (RJ, 1997). Em televisão participou das novelas “Laços de Família” e “A Lua Me Disse”, dos programas humorísticos “A Diarista”, “A Grande Família” e “Sob Nova Direção” na Rede Globo e “Tecendo o Saber” da TV Futura. Em 1995, trabalhou na Rádio MEC, como rádio-atriz, integrando o elenco dos programas educativos. É professora do Centro de Estudo Artístico Experimental, no Sesc Tijuca, desde 2001.

DANI BARROS – Atriz. Graduada em Artes Cênicas (UNIRIO). Integrante do grupo Doutores da Alegria há nove anos. Faz parte do elenco fixo do seriado “Minha nada mole vida”, da Tv Globo, interpretando a produtora do personagem de Luis Fernando Guimaräes. Foi integrante do grupo “Os Fodidos Privilegiados” por oito anos. Trabalhou em mais de vinte espetáculos de teatro, como “Utopia” – direção de Moacir Chaves, “O Casamento” – direção de Antônio Abujamra, “A Fonte dos Santos” e “Tudo no Timing”, direção de João Fonseca. FOI INDICADA AO PRÊMIO SHELL POR SUA ATUAÇÃO EM ACQUA TOFFANA

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1 comment so far

  1. Drª Leila Sara on

    Adoro esse tipo de enfoque, pensando a mulher em termos de opostos: desejos X medos.
    Escreveu muito bem e será objeto de minha reflexão. Coloca a mulher em vários papéis e caracteriza uma pseudo-problemática.
    Gostei muito.
    Drª Sara


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