Instituto Tomie Ohtake traz trinca individuais

Repassar a importante obra da mestre gravadora Anna Letycia, apresentar um raro panorama da obra do influente fotógrafo Cristiano Mascaro e reunir a mais recente produção da inconfundível pintura de Dudi Maia Rosa são os objetivos destas amplas individuais, que ocupam todas as salas do Instituto Tomie Ohtake, com inauguração simultânea no dia 28 de fevereiro.

A mostra de Anna Letycia integra também o projeto Ateliê de Gravura realizado pelo  Instituto, com o patrocínio da Visa, no qual os alunos podem entrar em contato com o aprendizado da técnica e com a obra de expoentes nesta área, como é o caso da gravadora carioca. Já a mostra de Cristiano Mascaro é referência para um outro programa, o projeto Captação de Imagem, curso patrocinado pela Porto Seguro, que possibilita jovens alunos a construir a fotografia, desde o modo mais elementar – caixas de lata com furo como objetiva -, até o uso de máquinas digitais, como linguagem e como arte. A individual de Dudi Maia Rosa, por sua vez, é uma oportunidade para os alunos de seu curso no Instituto Tomie Ohtake entrarem em contato com os mais recentes trabalhos do professor artista.

Anna Letycia (1929, Rio de Janeiro, RJ) participou, como um dos mais jovens valores, dos anos de ouro da gravura brasileira, décadas de 40, 50 e 60, quando o Brasil foi premiado nas Bienais de Veneza e de Paris. Aluna de Iberê  Camargo e Goeldi, a artista começa a atuar na geração dos figurativos, que inclui outros grandes gravadores como Carlos Oswald, Segall, Livio Abramo, Marcelo Grassmann, os gaúchos do Clube de Gravura de Porto Alegre, entre outros.

A artista participou também da passagem para o abstracionismo, ao lado de Fayga Ostrower, Edith Behring, Rossini Perez, Artur Luiz Piza, João Luiz Chaves, Tereza Miranda, Maria Bonomi, Roberto Delamonica etc. “Neste contexto, entre figuração e abstração, se dá a grande contribuição de Anna Letycia à gravura brasileira”, declara Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake.

Os cerca de oitenta trabalhos reunidos nesta exposição revelam o virtuosismo da técnica, influência da primeira geração, e o espírito de renovação da seguinte, o que imprime o caráter contemporâneo de sua produção. Segundo Ferreira Gullar, Anna Letycia alarga o seu universo gráfico, não só por ampliá-lo tecnicamente, mas também por adotar, em face da arte de gravar, uma postura original e moderna. Para ele, os caracóis, as caixas, as formigas, os tatus, enfim os elementos do mundo ao redor da artista eram a gênese das formas que se transformariam na sua arte, caracterizada por um minimalismo mais expressionista do que racional. “Anna Letycia, fiel a sua natureza reflexiva, caminhou no rumo da tradução das formas figurativas em linhas e signos até chegar, mais tarde, a uma geometria figurativa de que são exemplos as suas caixas”, escreve  o crítico.

A artista carioca sempre trabalhou intensamente, não só realizando gravura em metal e pintura, como no ensino da arte, no MAM do Rio e no Ingá em Niterói, dois excepcionais centros de debate, destacando-se também no teatro, como cenógrafa e figurinista. Anna Letycia voltou a fazer gravura em metal, retomando com maestria os caramujos e as caixas, com traços mais suaves e movimento manual mais evidente. Ultimamente, realiza trabalhos  de figuras humanas com grandes formas de largas pinceladas na chapa, mantendo a sensibilidade da mão do artista na confecção da gravura.

Já a exposição Cristiano Mascaro – Todos os Olhares é uma rara oportunidade de se ver um panorama da trajetória do consagrado fotógrafo paulista (1944, Catanduva, SP), pois suas individuais sempre ocorrem em torno de um projeto específico. As 50 imagens (105 x 105 cm e 86 x 120 cm), selecionadas pelo crítico Agnaldo Farias em parceria com o próprio artista, partem da década de 80, quando a questão da paisagem urbana torna-se fundadora da sua obra autoral, chegando a trabalhos recentíssimos realizados em 2008, também relativos à cidade. “São os trabalhos que mais gosto de fazer, isto é, sair flanando pela cidade e ir de encontro às coisas”, costuma afirmar Mascaro.

“Ele é um mestre no que se refere à percepção da arquitetura como protagonista”, explica Agnaldo Farias. Segundo o crítico, sob o olhar do artista, prédios inteiros, empenas cegas ou pequenos detalhes construtivos parecem crescer de tamanho, como é o caso do flagrante do momento em que o Elevador Lacerda, esquecendo-se da sua função utilitária, projeta-se inchadamente sobre a baía de Todos os Santos, como uma construção dividida entre o desejo de ser um volume e a condição de plano escuro, próprio de sua natureza de fotografia. “Lavradas em preto e branco, o que comprova sua preocupação em ressaltar a fotografia como um problema de linguagem e não como um convite à ilusão, a obra de Cristiano Mascaro consiste em propor um conjunto de olhares demonstrando-os como uma modalidade de construção e não como simples operação dos sentidos”, completa.

Quando freqüentava a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU-USP, (1964 a 1968), Mascaro percebeu que gostava de fotografia e começou a experimentar. “Interessante que não foi ‘queimando filme’, característica de quem ganha uma câmera, ou quem inicia um processo de ‘bater fotos’, ele testava os filmes, procurava conhecer a luz na foto, já pesquisava profundamente o processo da fotografia”, explica Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake e colega de Mascaro na faculdade.

Hoje Cristiano Mascaro é um dos mais respeitados fotógrafos do país. Em 2007 ganhou o maior prêmio no projeto Porto Seguro de Fotografia pelo conjunto de sua obra, a sua individual “Cidades reveladas” passou pelo Centro Cultural Correios, no âmbito do evento FotoRio – Rio de Janeiro, RJ, pelo Museu de Arte Sacra, em Belém, PA e pela Galeria ArtLounge, em Lisboa. No mesmo ano, entre as coletivas destacam-se “Mirame: uma ventana a la fotografia brasileña”, na Fototeca de Cuba, em Havana, e “Olhares cruzados: Cristiano Mascaro vê Berlim, Sibylle Bergemann vê São Paulo”, na cidade alemã.

Na abertura da exposição, Cristiano Mascaro também autografa o livro Desfeito e refeito, novo volume da Coleção Educação do Olhar, da editora BEĨ (128 páginas, R$ 82,50), que aborda a obra do fotógrafo sob seu próprio ponto de vista. Retirado de um ensaio do crítico literário Antonio Candido, o título representa, para Mascaro, a essência da fotografia: “desfazer o confuso emaranhado da realidade e – ao conceder perenidade ao instante impreciso e fugidio – refazê-la melhor”. A partir de entrevistas concedidas pelo fotógrafo, o livro acompanha sua formação, carreira e processo de criação, apresentando ainda a influência que nomes consagrados exerceram sobre seu trabalho, além de discutir as transformações impostas à fotografia contemporânea pelo rápido avanço das novas tecnologias.

Dudi Maia Rosa (1946, São Paulo, SP) passou dois anos se dedicando radicalmente a esta nova série composta de 22 obras (1,97 x 1,97 m). A exposição Eu sou um outro – Pinturas recentes de Dudi Maia Rosa reúne este conjunto de obras que será exibido pela primeira vez ao público, ocupando duas grandes salas do Instituto Tomie Ohtake: uma, com os trabalhos de texturas mais opacas, e a outra, reunindo aqueles nos quais a transparência se destaca. Segundo o crítico, “Eu sou um outro” é a frase de Rimbaud tomada pelo artista como um preceito, uma declaração de princípios que afirma seu gosto pelo diverso, pela liberdade em perceber, ou criar, um fio capaz de alinhavar coisas muito distintas entre si, unindo-as, apenas, sem a pretensão de prendê-las em definitivo.

Vista como pintura, mas criada como uma “não-pintura”, a obra de Dudi abandona a superfície da tela, as tintas e os pincéis e instaura um novo procedimento de construção do suporte. Com moldes de fibra de vidro preenchidos com resina de poliéster pigmentada ele cria sua pintura pelo avesso da “tela”. “Efetivamente, o trabalho do Dudi encontrou uma maneira de dar sobrevida à pintura como atividade de vanguarda. Dá para chamar de pintura porque dialoga com a tradição da pintura, mas não é tradicional”, explica Oswaldo Corrêa da Costa no livro “Dudi Maia Rosa e As Mortes da Pintura” (Ed. Metalivros, 2006). 

Segundo Agnaldo Farias, Dudi é atento a peculiaridades do nosso tempo, pois, com  materiais e procedimentos insólitos para pintura, explora características como brilho, opacidade e transparência, ao mesmo tempo em que conversa com outros artistas, de Monet e Volpi à Tarsila e Guston, dos quadrinhos a maços de cigarros.  “Há algo de industrial no processo com que suas pinturas são executadas, mas há um outro aspecto que vem se juntar a esse material e que igualmente interessa ao artista: o embaralhamento de suas próprias referências, do muito que lhe impressionou em seus mais de quarenta anos de produção artística, e que podem ser sofisticadas como uma tela de Claude Monet ou populares como os desenhos do Mickey”, completa.

Dudi Maia Rosa é um dos expoentes da geração 60, década em que cursa a FAAP e acompanha o ateliê de Wesley Duke Lee até ir morar na Inglaterra. Em 1972, volta ao país e freqüenta a Escola Brasil, antes como aluno, depois como professor. Na década de 70,  realiza trabalhos que têm como tema a cidade de São Paulo. Nos anos 1980, inicia suas experiências com os materiais, como a resina, que até hoje são marcas de sua reinvenção.

Exposições:
Abertura: 28 de fevereiro (convidados), às 20h
De terça a domingo, das 11h às 20h – entrada franca
Anna Letycia: até 13 de abril de 2008
Cristiano Mascaro – Todos os Olhares: até 4 de maio de 2008
Eu sou um outro – pinturas recentes de Dudi Maia Rosa: até 27 de abril de 2008

Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima, 201 (Entrada pela Rua Coropés) – Pinheiros SP
Fone: 11.2245-1900

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