Obra-prima dos quadrinhos modernos traz família assombrada pela epilepsia

Muitas vezes, quando se lê uma resenha sobre uma graphic novel qualquer, é comum o leitor deparar-se com adjetivos como “cinematográfica” ou “literária”, tentando aproximar os quadrinhos de outras formas de arte ditas “mais nobres”. Porém, assim como a melhor literatura e o melhor cinema, Epiléptico do francês David B., é uma obra que não poderia ser transposta para outros meios – pertence exclusivamente aos quadrinhos. Com uma narrativa seqüencial entre os sonhos e a realidade, David B. criou, nas palavras do escritor norte-americano Rick Moody (Tempestade de Gelo), “uma história intelectual gráfica (…) um ‘romance de formação’ influenciado tanto por Gide, Foucault, Marlaux e Barthes quanto por Spiegelman”.

David B. (pseudônimo de Pierre-François Beauchard) teve uma infância, até certo ponto, normal. Nascido em 9 de fevereiro de 1959 em Nîmes, uma pequena cidade próxima a Órleans, brincava com seus irmãos e vizinhos – amarrar sua irmã na cadeira como se queimasse Joana D´Arc é um dos divertimentos favoritos de Pierre e seu irmão mais velho, Jean-Christophe.

Porém essa paz é quebrada pela chegada do “haut mal” – termo coloquial francês para epilepsia. Jean-Christophe sofre seu primeiro ataque, e a doença começa a afetar toda a família. Enquanto a saúde do irmão mais velho começa a deteriorar, os pais arrastam toda a família Europa afora, por uma década, em busca de uma cura para a doença. Decepcionados com as saídas da medicina normal, decidem procurar saídas alternativas, das dietas macrobióticas aos templos Rosacruz. Porém de nada adianta, e a família entra numa espiral, arrastada pela evolução da epilepsia de Jean-Christophe – tudo representado graficamente no engenhoso traço de David B. Epiléptico é repleto de metáforas visuais – a epilepsia é retratada, inicialmente, como uma espécie de dragão chinês com o corpo infinito, e quando Pierre, mais velho, começa a compreender melhor a natureza das convulsões do seu irmão, o monstro transforma-se em um aspecto do próprio Jean-Christophe.

David B. explora a linguagem dos quadrinhos com maestria para retratar uma família despedaçada, traduzindo em imagens a angústia, medo e dor – um retrato que, apesar de surreal, é absolutamente fiel a uma infância onde a imaginação transforma-se em delírio, protegendo a sanidade de um garoto de cinco anos arrastado para um cotidiano turbulento e inacessível.

O Autor

David B. é um dos fundadores da L’Association, editora criada por um grupo de quadrinhistas alternativos (entre eles Cristophe Blain e Frédéric Boilet) que revolucionou o panorama dos quadrinhos franco-belgas no início dos anos 90. Nessa época, David ganhou notoriedade com histórias curtas sobre sonhos e pesadelos, compiladas nos álbuns Lê Cheval Blême e Les Incidents de la Nuit. Em 1996 deu início à publicação de Epiléptico, obra que lhe rendeu reconhecimento internacional e um prêmio de melhor roteiro no Festival de Angoulême em 2000. Em 2005, recebeu o prêmio Ignatz como Artista Destaque.

Trecho de Epiléptico:
http://www.lojaconrad.com.br/trecho/epileptico_1_p1.asp

Título:
Epiléptico – Volume 2
Autor:
David B.
Tradutor:
Idalina Lopes
Preço:
R$ 44,90
Número de páginas:
208 páginas

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