Karin Lambrecht e Marcelo Silveira expõem em SP

A artista gaúcha Karin Lambrecht (Porto Alegre, 1957) apresenta na galeria Nara Roesler  uma composição pictórica em homenagem a Albert Camus, registrando o dia em que o autor de O Estrangeiro esteve em Porto Alegre: 9 de agosto de 1949. Suporte denominado pela artista como “anotações de pintura e desenho”, a obra inédita constrói por meio de vários planos a atmosfera real de um pequeno quarto de dormir e coloca em suspensão a obra literária do consagrado escritor. Além deste trabalho, serão apresentados quatro telas e cinco desenhos recentes.

Com uma cruz, signo recorrente na obra de Karin, rebatida no chão, com um colchão e uma mesa no centro, além de luz e projeção, a artista revisita, 50 anos depois, a estada de Albert Camus na capital gaúcha. “Ela mistura a existência real do escritor com o sentido existencial de sua obra evocando o céu cúmplice do ato de Meursault (O Estrangeiro) ou ainda o da infância do artista na distante Argélia”, escreve Paulo Reis, brasileiro radicado em Portugal, professor de História da Arte da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, em Portugal. A cruz no trabalho de Lambrecht, como aponta o crítico Agnaldo Farias, além de signo da cristandade, é o gesto que fazemos da testa para o tronco, de um ombro para o outro, como a demarcação de um território, a afirmação de um lugar onde se está.

Neste trabalho 9 de agosto de 1949 – Albert Camus há uma profusão de matérias em azul – cor retomada por Karin, trabalhada intensamente até 1990, quando atuava na galeria Subdistrito –, como o linho e o cetim , além de outros materiais em azul cobalto.  Segundo Karin, a obra é como um agregado de planos de uma pintura não pintada. “Numa equação: pintura é corpo e luz = matéria + luz”. Karin retira daí a sua chave sobre a sobrevivência da pintura: “Enquanto houver luz, há pintura, enquanto se olhar para a luz, se olha para a cor”, declara.

Karin Lambrecht é egressa da geração 80, quando participou da famosa Como vai você, Geração 80?, realizada no Parque Lage, Rio de Janeiro, em 1984. Desde então, realiza individuais e participa de coletivas, como Bienal Brasil Século XX, Fundação Bienal de São Paulo (1994), e Bienais Internacionais de São Paulo (1985 e 1987). Entre as mostras mais recentes destacam-se: em 2005, Lágrimas, Mosteiro de Alcobaça, Portugal, Dor, Forma Beleza, Estação Pinacoteca, São Paulo e 5ª Bienal do Mercosul – VETOR: A Persistência da Pintura – Armazéns do Cais do Porto, Porto Alegre; em 2006, Manobras Radicais, Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo; em 2007, Mulheres Artistas – olhares contemporâneos, Museu de Arte Contemporânea, Universidade de São Paulo, Ibirapuera, SP, Anos 70 – Arte como Questão e 80/ 90 Modernos Pós-Modernos etc, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo.

Marcelo Silveira (Gravatá, PE,1962) apresenta a série Arquitetura de Interior composta de 12 peças em madeira e vidro e 12 livros. Com estes trabalhos inéditos ele sublinha mais uma vez o ambíguo significado dos objetos. O artista questiona a intenção daquelas peças colocadas em cima de mesas, ao lado de sofás, ou mesmo nas estantes, apontando como a matéria pode conter também a expressão do vazio.

Esta série é composta de peças que não foram feitas para serem manipuladas. As obras em madeira encapsuladas em vidro – que confere ainda maior profilaxia estética aos objetos – foram denominadas ironicamente de Chocolate, Cuscuz, Rolha etc. O mesmo se dá com os livros, feitos com capa de couro e folhas de papel de presente que, parafusados, não podem ser abertos, existem para ser apreciados como pintura. Marcelo Silveira mais uma vez inverte a ordem das “coisas” para apontar o pensamento que atravessa a sua produção: ausência e presença. Por que para as coisas existirem elas precisam estar?, pergunta Marcelo.

“A maneira como articula matéria-prima e procedimento, representação e achado, imagem e  objeto, narrativa e forma, têm sido a principal marca da obra de Silveira. Assim, desde trabalhos do início desta década, duplicar, seriar e repetir são procedimentos para o artista avançar na sua poética de, ao mesmo tempo, aproximar-se do mundo e negá-lo”, escreve o crítico Rodrigo Moura.

Marcelo Silveira é graduado em Educação Artística pela Universidade Federal de Recife. Recentemente, entre as mostra individuais destacam-se: em 2006, Galeria Nara Roesler; em 2005, Centro Cultural Maria Antônia, SP; e, em 2004, Pinacoteca Universitária da U.F.AL, Maceió-AL; Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM, Recife-PE; e Escola Guignard, BH-MG. Entre as coletivas estão: em 2008, Panorama da Arte Brasileira, Alcalá 31, Madri, Espanha; em 2007, 4ª Bienal de Valência, Centro del Carmen – Museo de Bellas Artes de Valencia, Espanha; e Panorama da Arte Brasileira, MAM – Museu de Arte Moderna, São Paulo, SP; em 2006, Geração da Virada 10 + 1: os anos recentes da arte brasileira, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo.

Karin Lambrecht e Marcelo Silveira

Abertura: 24 de junho, das 20h às 23h (para convidados)

19h – conversa como os artistas

Para o público: de 25 de junho a 19 de julho de 2008

De segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 15h.

Galeria Nara Roesler

Av. Europa, 655 – São Paulo. Tel: 11.3063-2344 Fax: 11.3088-0593

Site: www.nararoesler.com.br / E-mail: galeria@nararoesler.com.br

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