Começa a 9ª Bienal Naïfs do Brasil

De 05 de setembro a 14 de dezembro de 2008
Sesc Piracicaba – abertura às 20h
Transmissão da abertura on-line no portal: http://www.sescsp.org.br

Com 70 artistas selecionados e 107 obras, começa no próximo dia 05 de setembro – sexta-feira, às 20h, no Sesc Piracicaba, a 9º edição da Bienal Naïfs do Brasil, realizada pelo SESC São Paulo. A Bienal Naïfs do Brasil 2008, contou com um júri para a escolha das obras e um curador somente para a Sala Especial, o crítico de arte Olívio Tavares de Araújo que selecionou trabalhos de oito artistas significativos e consagrados, com variações nas linguagens (madeira, barro, fotografia etc.). O júri, composto pela a antropóloga, Ângela Mascelani, o artista plástico e acadêmico, Percival Tirapeli e o escritor e jornalista, Romildo Sant’anna, fez a escolha de obras que não se prestassem a uma temática, mas tiveram um trabalho mais árduo ao lidar com a liberdade de opção. O trabalho em conjunto proporcionou uma seleção mais acurada e nasceu daí, uma proposta de uma seleção baseada na qualidade artística dos autores. Mesmo a ambientação, a arquitetura das disposições dos trabalhos, foi feita neste espírito corporativo – no sentido de partes que formam um corpo.

Foram avaliadas 904 obras inscritas de 452 artistas e selecionados 107 trabalhos, entre esculturas, pinturas, aquarelas de artistas de todo o Brasil, representando 21 estados.

Para Percival Tirapeli: “Se 21 estados da nação estão aqui representados e a produção obrigatoriamente teve que ser recente (no período de dois anos), nada mais do que eleger esta bienal como representativa dessa pulsante criação da primeira década do século XXI. É expressão pura dos artistas do povo brasileiro que se manifestam com total liberdade e que assim são acolhidos por esta instituição, o SESC, presente em todo o país, sendo Piracicaba seu local irradiador, condizente com sua cultura em todas as expressões no cenário nacional”.

A iniciativa da Bienal Naïfs do Brasil surge em 1986 como uma exposição comum e que, a partir de 1992 passa a ter a periodicidade bienal, no SESC Piracicaba. Nasceu com o objetivo maior de valorizar estes artistas que, fora de um contexto acadêmico e teóricos, produziam incessantemente a beleza com que traduziam o mundo, que tem na natureza, seu principal objeto de apreciação. A composição atual da Bienal como um todo, traz um “panorama” de técnicas, estilos, símbolos e códigos da cultura brasileira.

Ao partir da iniciativa de uma exposição de pintores naïfs, a Bienal foi tomando corpo e relevância. Foi um impulso dado não somente pelas pessoas envolvidas mas pelo que se viu nas obras algo além de puro simplismo. A força que as obras suscitavam fez com que muitos artistas formais voltassem os olhos para sua importância e, então, formaram-se júris especializados para a escolha das mesmas, chamaram-se curadores para esboçar temas e formatos, elevando, assim, a estima destes artistas naïfs que estavam confinados a uma geografia restrita por não possuírem um lugar onde sua arte pudesse encontrar um público. A intenção sempre foi a de motivar estes artistas, dar-lhes oportunidades, inseri-los num mercado de arte.

Para o diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, “Se pensarmos que o artista naïf gera sua arte sem a influência de conceitos, quão difícil, então, podemos imaginar o processo de sua criação. A percepção de um mundo novo surge do caos, da desordem, que ele alinha, ordena e traduz como arte. É um ser que se debruça sobre seus sentimentos e discorre sobre o universo como uma espécie de deus” comenta orgulhoso de mais uma Bienal.

A 9ª Bienal Naïfs do Brasil terá transmissão on-line, pelo portal do Sesc, http://www.sescsp.org.br  e apresentação de Fabio Malavoglia, assim, participantes de todo o Brasil, ou mesmo familiares e amigos, poderão acompanhar a entrega dos prêmios dos artistas selecionados para a edição 2008.

Artistas premiados:
Destaque-Aquisição
Dalton Oliveira de Paula, da cidade de Goiânia (GO), com a obra “2º Gemelar” e Rogério Soares de Sena, de Belo Horizonte (MG) com a obra “Sem Título”.

Prêmios Incentivo
Claudimar Gonzaga Pereira (Pirenópolis/GO), com a obra “Festa do Divino de Pirenópolis”;
Eli Bacelar da Silva (Manaus / AM), com “Danças Flora Fauna”;
Gersion de Castro Silva (São Sebastião / DF), “O Fim de Semana Chegou”;
Marcelo Schimaneski (Ponta Grossa / PR), “Cidade Agitada” e
Marilene Gomes da Silva (Barueri / SP), “Encontro de Maracatu Rural – Olinda / PE”.

Menções Especiais
Aloisio Dias da Silva (Marília / SP), com a obra “A Dengue no Rio de Janeiro I”;

Carmézia Emiliano (Brasília / DF), “Espremendo Caju”;

Daniel Firmino da Silva (São José do Rio Preto / SP), “Futebol na Vila Azul”;

Dalila Ferreira Farnese (Lídice Rio Claro / RJ), “Mata Atlântica”;

Deusdete Antonio de Miranda (Rondonópolis / MT), com a obra “Culpado II”;

Iwao Nakajima (Embu / SP), com “Festa do Divino”;

José Luiz Soares (Belo Horizonte / MG), “Viva!! O Milagroso São Sebastião” e

Maria Lucia Beraldo (Ribeirão Preto / SP), com a obra “Procissão III”.
Sala Especial – curadoria Olívio Tavares de Araújo

Uma das marcas na Bienal Naïfs do Brasil são as salas especiais. Este ano o curador convidado é o crítico de arte, Olívio Tavares de Araújo, que traz oito renomados artistas vindos de diversos estados brasileiros. São eles: Roseno, o Antonio Roseno de Lima de São Paulo; Francisco Moraes da Silva, o Chico Tabibuia, do Rio de Janeiro; Alcides Pereira, da Bahia; Manuel Gomes da Silva, conhecido como Nuca de Tracunhaém, de Pernambuco; Sebastião Theodoro Paulino da Silva, o Ranchinho, de São Paulo; Eli Heil, de Santa Catarina; vem do Acre, Chico da Silva e da Bahia, Louco, como é chamado Boaventura da Silva Filho.

Para o curador, Olívio Tavares de Araújo “Igualmente o termo naïf (ou ingênuo) estabelece uma hierarquia, como se o artista erudito fosse emocional e/ou intelectualmente mais maduro, mais lúcido, mais inteligente. Nada disso. Pode ser, quando muito, mais informado”, afirma.

Os artistas aqui apresentados foram construindo em seu trabalho um “estilo” individual semelhante àqueles existentes entre os criadores pertencentes às elites.

A sala especial conta com 64 obras em diversos formatos e suportes.

OS ARTISTAS DA SALA ESPECIAL

Alcides [Alcides Pereira dos Santos]

1932, Rui Barbosa/BA – 2007, São Paulo/SP

Nascido na Bahia, chegou em 1950 a Mato Grosso, onde se radicou, com 18 anos de idade. Vindo dos trabalhos exaustivos da roça, experimentou os ofícios de sapateiro, barbeiro e pedreiro, antes de exercer a arte da pintura. Segundo Aline Figueiredo (1977), com 19 anos de idade, “alcança as maiores revelações da sua vida: a religião e a pintura”. Evangélico, acredita que a arte é dom de Deus. Sua pintura, em consequência, reflete o provimento da vida do homem pela natureza, através do cultivo da terra e da pecuária, nas suas relações mútuas. Não se limita ao aproveitamento dos dons divinos da terra pelo homem e representação simbólica de Alcides. Também a tecnologia e a vida das cidades devem revelar louvor à Criação, através de flagrantes do dia-a-dia, sem qual laivo de proselitismo ou de representação explícita do sobrenatural. E assim ele pinta a série da criação do mundo em sete dias, incorporando ao trabalho as legendas bíblicas: “Disse Deus: Haja terra seca, haja relva, e árvores e flores.” A serenidade das suas paisagens da década de 70 permanece, portanto, inalterada nas décadas de 80 e 90. Nessas, contudo, acentuam-se o grafismo e o geometrismo do seu trabalho, em que a figura humana – como também ocorria na década de 70 – está no campo da composição em pequena escala, pois é o todo da paisagem como criação macro que interessa. Participou de inúmeras exposições no Brasil. A mais recente, Arte popular, Mostra de Redescobrimento, 500 anos, na Fundação Bienal de São Paulo, em 2000. Trabalhos seus integram o acervo do Museu de Arte Popular do Centro Cultural de São Francisco, em João Pessoa, Paraíba.

Chico da Silva [Francisco Domingos da Silva]

1910, Alto Tejo/AC – 1985, Fortaleza/CE

Nasceu no Acre, em plena floresta amazônica, filho de Minervina Félis de Lima e de Domingos da Silva, caboclo peruano. É talvez o primeiro artista de fonte popular, depois de Vitalino, a atingir evidência na mídia de todo o país, bem como na estrangeira especializada. Em entrevista que me deu na sua casa do Pirambu, em 1974, expressando-se em português fluente e correto, as lembranças de infância de Chico Silva se resumiam “à manjedoura do rio, atirando de boleadeira nos pássaros”. Foi para o Ceará com a família aos seis anos de idade. Em seguida, para uma fazenda em Quixadá. Com a morte da mãe, que o recomendara a amigos fazendeiros, “vai se criando, sempre no meio da sociedade. Não precisava de escola. A natureza, eu tinha”. Com 12 anos vai para Guaramiranga, onde ficou até o início da mocidade. Iniciou-se na pintura em Fortaleza (CE), sua residência desde 1935, exercendo pequenos trabalhos de sapateiro, funileiro, soldador, pedreiro, carpinteiro e pintando paredes. Do que mais gostava, no entanto, “era desenhar com mato verde apanhado na hora, e tijolo branco e vermelho (porque eu não tinha tinta naquela época) nas paredes das casas dos pescadores”. Na década de 60, iniciou-se o doloroso e espetacular périplo de Chico, que abandona a Universidade, expondo-se a uma comercialização desenfreada da sua arte, com raros momentos de exceção, como as exposições na galeria Relevo (RJ, 1963), na Galeria Jacques Massol (Paris, 1965) e Artistas Primitivos Brasileiros (cidades da Europa, inclusive Moscou, 1966). Recebeu menção honrosa na Bienal de Veneza de 1966, com a curadoria do crítico Clarival do Prado Valladares, que na ocasião escreveu: “É o intérprete de uma mitologia diluída na tradição oral de uma região imensa que só ele fixou e refletiu(…). Outro aspecto relevante é a sua qualidade plástica como composição bem ordenada e construída (…). O grafismo, a trama do desenho, a policromia e o enriquecimento detalhista são características marcantes.” Paralelamente a esse brilhante circuito, havia-se constituído em Fortaleza, com o consentimento do artista, que praticava excessos com bebida, uma rede coletiva de produção dos seus trabalhos. Apareceram centenas de telas com pinturas a óleo, de execução mais fácil que os guaches sobre cartolina. Tinha sido excessiva a exposição de Chico à mídia e ao mercado. Nos anos 70 ele adoeceu e seu prestígio decaiu até as multiplicações de seu trabalho se encontrarem em lojas de souvenirs. Em 1974 o governo do Estado lhe dá outra casa, mas com a saúde abalada o artista é internado, em 1977, em uma clínica psiquiátrica, da qual ainda sairia para participar da I Bienal Latino-americana promovida pela Bienal de São Paulo. Novas recaídas da doença, novas polêmicas sobre falsificações de obras, concessão de pensão vitalícia e oferecimento de uma nova casa pelo governo do Ceará marcaram o ano da morte de Chico Silva, pai de nove filhos vivos e um dos grandes artistas do país.

Chico Tabibuia [Francisco Moraes da Silva]

1936. Casimiro de Abreu/RJ – 2007, Barra de São João/RJ

Nascido do munipício de Silva Jardim, na fazenda Maratuã, Aldeia Velha, Chico Tabibuia só foi registrado pelo juíz de Casimiro de Abreu quando tinha 36 anos de idade, juntamente com sua mãe. Na extrema miséria em que se criou, esclarece o seu biógrafo e estudioso Paulo Pardal, não havia possibilidade para o registro de nascimentos. Seu pai era um pardo, “neto de fazendeiro português que teve 40 filhos com escravas”, relatou a Pardal. A mãe, uma cabocla. O avô materno era carpinteiro, seu bisavô, Antônio Anema, também. Seguindo a forte tradição africana que reverencia a presença dos antepassados, Tabibuia conta a Pardal que seu bisavô, Dominguinho Ferreira Neto, “foi pegado pelos reis e foi escravo de reis, só libertado quando acabou a escravidão”. Mas quando fez a “passagem para o céu”, ensinou ao filho tudo o que é bom: “fazer casa de farinha, canoa, moinhos de fubá e café, carro e canga de bois, madeiramento para construir casas, carrocinhas dos escravos puxar mantimentos”. A mãe de Tabibuia, Francisca Neta, teve Chico com Manuel Moraes da Silva, lavrador de café e criador de galinhas. Mais tarde, com os 16 filhos de outros casamentos, Francisca trabalhou plantando mandioca e fazendo esteiras de palha, sem nunca largar a família: “não deu nós a ninguém. (…) Meu pai que conheci foi ela”. Com dez anos de idade Chico esculpe seu primeiro “boneco”, já dotado de pênis. Após outras errâncias e tentativas de trabalho ali mesmo na região, Chico resolveu trabalhar sozinho, “tirando tabibuia” por muito tempo, herdando o apelido dessa árvore, cuja madeira é usada em tamancos e lápis. Por volta do anos de 1970 voltou a esculpir, com 40 anos de idade. Além das esculturas, fez móveis rústicos para as cidades da região, mas como não conseguia receber o pagamento devido, estava a ponto de desistir quando o seu encontro com Paulo Pardal, que também tinha casa em Barra de São João, veio infundir novo ânimo no artista. Paulo se tornou seu principal colecionador e divulgador. Legitimado pela crença pentecostal para a representação de Exu, já que agora não era mais considerado transgressor, como antes na umbanda, porque livre da interdição do segredo, do mistério que deve cercar esse sobrenatural, Tabibuia declarou que, ao retratá-lo, faz com que fique aprisionado na escultura, “para não fazer mais mal ao povo”, ficando cada vez mais “fugido das matas”, onde poderia atuar em liberdade. Tabibuia paga dízimo das vendas cada vez mais freqüentes de suas obras e considera-se liberado para a sua escultura solene e sagrada do eros. Dia que tem “exu na cabeça e Deus no coração (…). Meu estudo veio do berço e quem está acompanhando são os anjos do céu. Durmo e tem um Velho que ensina que é Deus”. Frederico Morais reparou na “criatividade” em nível elevado de Tabibuia, que traz um elemento erótico – não pornográfico – que é forte no conjunto da arte brasileira”, bem como na monumentalidade de muitas de suas esculturas. Tabibuia constrói uma obra importante no quadro das artes visuais brasileiras, com uma marca pessoal inconfundível, que, ao remeter a uma fonte afro, transcende-a, exprimindo a força dos eros na dualidade masculino/feminino – talvez a mais antiga e profunda na história da humanidade. A partir de 1981, participa de mais de 20 exposições coletivas e dez individuais por todo o Brasil, bem como de mostras antológicas no exterior. Sua obra consta dos principais museus de arte popular do país.

Eli Heil [Eli Malvina Heil]

1929, Palhoça/SC

Eli Heil, revelada na década de 60 pelo crítico João Evangelista de Andrade Filho, ultrapassou, em 1966, os limites da Ilha de Santa Catarina ao expor individualmente no Museu de Arte Contemporânea da USP, apresentada por Walter Zanini. Na introdução do catálogo para essa mostra, Zanini considera-a “a maior revelação da nossa arte de intuição primitiva destes últimos vinte anos”. É consenso de ambos os críticos ver na obra de Eli, naquela data, uma “visão expressionista de natureza cósmica, que dá magnitude ao seu pequeno mundo  de morro e currais.” Esse mundo não tardará a expandir-se cada vez mais, quer como inaudita liberdade formal ao explorar inovadoramente técnicas por ela mesma inventadas, quer como ocupação de um espaço real, que se ampliará pelos desdobramentos da pintura erodida e desenhos “esfolados” de Eli pela tridimensionalidade, da tapeçaria, da escultura, da cerâmica e, finalmente, pelas criações monumentais do Mundo do Ovo, no terreno da sua casa de Florianópolis. “Eu sempre achei que o ovo é o princípio de tudo”, declarou a Jandira Lorenz (1985), que escreveu sobre a sua obra um livro definitivo. “O Ovo para mim é redondo, é tudo aquilo que eu faço. É uma evolução de todos os meus sentimentos”, acrescenta Eli, que possui notável dom para expressar-se pela palavra, compondo freqüentes poesias sobre a própria criação, sempre ligada à sua biografia. “A arte é ver nascer do verde cérebro os mais maravilhosos seres imaginários”, declara a artista a J. Lorenz, que identificará na fabulação genesíaca de Eli a transmutação permanente de significados e formas. Imagem da fertilidade, estadeiam-se no trabalho de Eli falos, seios, serpentes, germinações. Lorenz apontará certas afinidades da artista “com alguns momentos, por exemplo, do Grupo Cobra, pelo seu furor cromático, por sua escala de antivalores (antibeleza, anti-razão, antimétier) e pelo tumulto e teatralidade de formas.” Os títulos das obras de Eli Heil falam do seu mundo: Animal desfiado, Morro faísca, Meu morro, meu pé, Cobra garruda, Cérebro telefone, Bicho tinta, Bicho Ovo, Peixe pássaro, És tu, orelha flor?, Mulher trançuda, Cavalo trança, Eu no Monte das Oliveiras. Filha de Clemente Tiago Diniz e Malvina Garcia Diniz, teve dez irmãos, dos quais sobreviveram seis, nascidos no município de Palhoça. Trabalhou como balconista e aos 16 anos ensinou no grupo escolar para ajudar a família. Estudou até o Normal Regional e fez o curso de educação física. Casou-se aos 22 anos com o comerciário José Urbano Heil e permaneceu por anos como professora de educação física de uma escola de Florianópolis (SC). Iniciou-se como autodidata na pintura em 1962. Expôs pela primeira vez em 1966, no 21º Salão Municipal de Belas Artes, em Belo Horizonte (MG). Dois anos depois, realizou mostra individual na capital mineira. Integrou a mostra coletiva Instinto e Criatividade Popular, no MNBA, do Rio de Janeiro (1975) com curadoria de Lélia Coelho Frota. Participou das exposições Arte Brasil Hoje 50 Anos Depois, em São Paulo (1974), Peintres Naifs Brésiliens de L´Imaginaire, em Paris (1976) e Artistas de Santa Catarina, Rio de Janeiro (1978), da Bienal Latino-americana de Mito e Magia, São Paulo (1979), da 6ª Bienal de São Paulo, Sala de Arte Incomum (1981). Em 1987 participou da mostra Brésil, Arts Populaires, no Grand Palais, Paris, com seu grande óleo sobre courvin Deus escolheu este lugar. É figura exponencial não apenas da arte catarinense, como também da criação brasileira do século XX.

Louco [Boaventura da Silva Filho]

1932, Cachoeira/BA – 1992, Cachoeira/BA

“Louco”, apelido de Boaventura Silva Filho, está certamente entre aqueles artistas que, segundo Gilberto Velho, construíram uma biografia a partir do campo de possibilidades “bastante típico da sociedade moderna, aparecendo fortemente solidário com o desenvolvimento de ideologias individualistas”.

Louco encontra-se, certamente, entre os grandes nomes da escultura brasileira do século XX. O jacarandá, a jaqueira, a sucupira, o vinhático, estão entre as madeiras que ele trabalhou por mais de três décadas, construindo uma veemente galeria de personagens sobrenaturais, que se distribuem entre a iconologia católica e a afro-baiana, ou as mesclam. Os títulos de suas obras deixam patente essa dupla filiação religiosa: Cabeça de Oxalá, Santa Ceia, Tocando atabaque, Iemanjá, Cristo, Oxalá Cristo, Grande, Anjo de candomblé. Esta escultura transculturada é bem visível no Cristo longilíneo com feições negras e na Última Ceia, sustentada, segundo ele, por escravos que estampamos aqui. Na escultura de Louco o ritmo sobressai como elemento construtivo dos mais importantes. Quer na sucessão de figuras seriais a formar sempre blocos harmônicos, quer na própria incisão com a goiva na superfície da madeira, que ele esfola, escama e ondeia. Seus personagens sobrenaturais, seus deuses, como ele os designou a Selden Rodman (1977) são figuras dinâmicas de sofrimento e transporte religioso. Como Agnaldo e Chico Tabibuia, Louco inova ao representar os próprios Orixás em sua escultura, pois a tradição africana, bem como a dos grandes candomblés de Salvador – que ele freqüentou durante um tempo – é abstrata e geométrica em seus pontos riscados ou então indica cada santo pelos seus trajes, adereços e atributos, sem nunca retratá-lo. Como eles, ele emerge do coletivo para uma instância individual, na busca de uma expressão cada vez mais profunda e pessoal, como qualquer artista da elite, construindo o que se chama de “estilo”. Olhos rasgados, e em geral semicerrados, nariz afilado, braços e pernas alongados são apenas elementos que resvalam na descrição do “expressionismo”, no sentido do drama e da dor inesgotávelmente reinventados na forma que confere aos seus trabalhos. Sobre o seu apelido, contou a Selden Rodman (1977): “Quando parei de raspar cabeças e deixar de ser barbeiro para esculpir blocos de madeira, meus vizinhos disseram: o homem é louco. Eu achei um nome artístico ótimo, e deixei de ser Boaventura Silva Filho naquela hora mesmo”. Na realidade, quando ainda era barbeiro Louco esculpia cachimbos de madeira e barro entre o atendimento dos clientes. Começou a fazer cabeças e figuras neles, mas acabaram por ficar tão grandes que passou finalmente para esculturas em blocos de jaqueira, de sucupira, de jacarandá. Levou-as para vender em 1965 no Mercado Modelo, onde foram vistas por Jorge Amado e Mário Cravo Jr., que as compraram, e aí se iniciou o seu renome como artista. Louco passou a vender seu trabalho sem precisar sair de casa, com suas obras disputadas por colecionadores e comerciantes de arte. Pôde então construir no meio de um coqueiral em Cachoeira a sua bela casa branca, redonda, com todas as portas e janelas esculpidas por ele, onde funcionou sua oficina e viveu com a mulher e dez filhos. Em 1972 participou da exposição O Espírito Criador do Povo Brasileiro, coleção Abelardo Rodrigues, em Brasília, e de mostra no Centro Domus, de Mião. Em 1974 integrou Sete Brasileiros e seu universo, com curadoria de Clarival do Prado Valladares, e em 1987 a mostra Brésil, Arts Populaires, no Grand Palais, Paris, com curadoria de Lélia Coelho Frota. Sua obra consta de grandes coleções particulares e integra o acervo dos principais museus de arte popular do país. Também ele criou em torno de si uma “escola”, como é comum em meio popular quando surge um mestre. Transmitiu o seu saber aos familiares: seu filho Celestino, o irmão Maluco, já falecido, e os sobrinhos Maluco Filho, Doidão e Bolão (que assina Louco Filho), e que também se projetam como artistas.

Nuca de Tracunhaém [Manuel Gomes da Silva]

1937, Nazaré da Mata/PE

Nascido no engenho de Pedra Furtada, Nuca, ainda menino, foi com a família de mudança para Tracunhaém, onde seu pai comprou um roçado. Ali a família morou e plantou para a sua subsistência. Chegando a um grande centro cerâmico como Tracunhaém, é natural que Nuca viesse a interessar-se pela olaria, vendo de perto o trabalho de Lídia Vieira e Zezinho, pelo qual declara admiração (O Reinado da Lua, 1980). Casou-se com Maria e continuou no ofício básico da olaria e plantando para sobreviver. É só aos 37 anos de idade que se iniciaria na escultura do barro, solicitado por um antiquário de Recife. Nuca cria, então, a bela escultura dos seus leões, que chegam a quase 1m de comprimento. Talvez os leões de louça portuguesa que ornamentam a entrada de casas antigas de Recife tenham sido o seu ponto de partida. Mas absolutamente distantes da representação realista, estes animais remetem antes aos primeiros séculos da antigüidade clássica. Com um ar arcaico e solene de guardiões – não de moradias comuns, para onde finalmente foram destinados – mas de espaços sagrados, eles resultam de uma concepção harmoniosa de volume e tratamento das superfícies, alternadamente lisas e trabalhadas com jubas de pêlos encaracolados, ou então, sulcadas a faca. Nuca esculpe nessa ocasião, ainda, figuras humanas dotadas da mesma simplificação ascética e arcaica da forma, onde os únicos ornamentos são ramagens e flores. Sua mulher, Maria Gomes, modela pequenos leões que chama de carrancas. Roberto Burle Marx colocou leões de Nuca na entrada da casa do seu sítio-museu em Guaratiba, no Rio de Janeiro. Um deles integra o acervo do museu de arte popular do Centro Cultural de São Francisco, João Pessoa, Paraíba, depois de participar da mostra Brésil, Arts Populaires, no Grand Palais, Paris, 1987.

Ranchinho [Sebastião Theodoro Paulino da Silva]

1923, Oscar Bressane/SP – 2003, Assis/SP

O cognome lhe veio realmente de um ranchinho de sapé (àquela altura, um depósito abandonado de ração de galinhas), e de outros barracos não menos insalubres onde ele morou longamente de favor. E não só a miséria afligiu Sebastião Theodoro, filho de lavradores de origem mineira. Até os 3 ou 4 anos de idade, só engatinhava – e depois de conseguir se aprumar, andou sempre meio trôpego. Além dele, mais dois de seus irmãos sofriam de deficiência mental. Ouvia mal, tinha grandes dificuldades no uso da palavra, e não foi capaz de aprender a ler nem escrever: apenas assinava o nome. Só após os 20 anos arranjou seu primeiro trabalho, que era girar a manivela da máquina de um vendedor ambulante de garapa. Não tinha a menor queda para as tarefas do campo, nas quais não conseguia concentrar-se; se lhe davam a enxada, logo a deixava de lado para ficar devaneando, resmungando e espantando os enxames de mosquitos. Viveu de expedientes muito simples, que eram os que conseguia executar – catar papéis, latas, garrafas –, e do auxílio dos que lhe davam roupa velha e comida. Era exibicionista sexual, às vezes agressivo, chegou a ser preso, objeto de campanhas pela imprensa, perdeu os dentes a porradas, e ao caminhar pelas ruas despertava a crueldade e as pedradas da criançada. Parece até ficção. Em suma, um excluído, um pária, um outsider completo, muito mais candidato a fazer arte incomum que de qualquer outra natureza. No entanto, a pintura de Ranchinho não é arte incomum; não possui, desta, o conteúdo delirante, as fantasias místicas, a impossibilidade de perceber a realidade exterior imediata, as repetições obsessivas. Nenhum de seus quadros se assemelha aos dos esquizofrênicos, por exemplo, cuja produção plástica é insólita, algo misteriosa e instigante. No que se refere aos temas, Ranchinho está muito mais para um José Antônio da Silva, caipira da mesma região. Fez uma crônica bastante objetiva da realidade que o cercava; tanto que seu descobridor, o corretor de seguros José Nazareno Mimessi – grande admirador de arte ‘primitiva’ em geral – o chamou de “zeloso repórter amador das atualidades da cidade”.  Se não se conectava satisfatoriamente com o mundo através dos outros sentidos, Ranchinho percebia-o perfeita e integralmente através do olhar, e sabia representá-lo com precisão, originalidade e vigor; era o que eu chamaria de um observador inteligente. Consta  que desenhava bem desde a infância. Como artista, despontou aos quase 50 anos. No momento áureo, a pintura de Ranchinho é das mais vibrantes, ricamente colorida (seja em cores variadas e alegres, seja em tons sombrios mas intensos, nas cenas noturnas), gestual, dramática, capaz de lembrar o expressionismo alemão – do qual, evidentemente, ele nunca teve a mais remota notícia. Mas até Ranchinho sabia – à sua maneira – de sua intenção. Não é por outro motivo que, a certa altura, colecionava imagens de folhinhas: porque nelas reconhecia um modelo desejável. Não tenho dúvida de que decalcou algumas dessas imagens: conheço-lhe um quadro de 1979, um Açougue de lindo colorido, cuja impecável perspectiva ele seria, decididamente, incapaz de traçar à mão livre. Em outros termos: estudou. Até Ranchinho quis aperfeiçoar seu instrumento de trabalho criativo.  

Roseno – Antônio Roseno de Lima

(1926 – 1998/ Assis/SP)

Não se sabe muito sobre Antônio Roseno de Lima (1926-1998), imigrante nordestino e pintor ‘primitivo’ ativo na região de Campinas, que se tornou moderadamente conhecido nos últimos anos de vida. Em 1991, chegou a merecer uma matéria na capa da “Ilustrada”, da Folha de São Paulo. Como observou Geraldo Porto, artista e professor da Unicamp (que o descobriu), foram seus quinze minutos de fama. Antes de se dedicar à pintura, entretanto, Roseno havia sido fotógrafo profissional, e mais de uma centena de suas fotos acabaram reunidas e doadas pelo professor Porto ao setor de memória daquela universidade.

O contacto com esse material é surpreendente e irresistível. Certamente é esta a primeira vez em que se apresenta, em público, a manifestação de uma sensibilidade e uma arte não eruditas sobre um suporte tecnicamente sofisticado e evoluído, como a fotografia – que até hoje fora privilégio de outros tipos de artista. Como José Antônio da Silva, Roseno realiza, com uma curiosa mistura de simplicidade quase rudimentar e sofisticação, um saboroso retrato interiorano do Brasil – claro que em estilo inteiramente diferente. Algumas obras recebem uma interferência de pintura nada realista, exibindo superfícies de cor chapadas e amplas e coloridos não imitativos. Quer nessas fotos com interferências, quer nas fotos deixadas no estado original, o trabalho de Roseno é vivo e diferente de todo o resto. Será sem dúvida uma revelação.

9ª BIENAL NAÏFS DO BRASIL 2008
Organização: SESC São Paulo
De 05 de setembro a 14 de dezembro de 2008
SESC Piracicaba – Rua Ipiranga, 155 – Centro
De terça a sexta das 13h30 às 21h30
Sábados, domingos e feriados das 9h30 às 17h30
Entrada franca   
Informações: http://www.sescsp.org.br ou pelo 0800 7700445
70 artistas selecionados
107 obras – diversos formatos e suportes
pinturas, esculturas, aquarelas.
Sala especial com curadoria de Olívio Tavares de Araújo
08 artistas selecionados
64 obras – pinturas, esculturas e fotografias.

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1 comment so far

  1. Manoel da Silva on

    Fui um dos artistas celedinados com a obra N. Senhora Aparecida.


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