Minha Mãe, de Georgse Bataille, no teatro

O espetáculo Minha Mãe – uma adaptação livre do romance homônimo do francês Georges Bataille – terá duas apresentações no Teatrix, dias 24 e 31 de outubro, à meia-noite. O monólogo, estrelado por Bia Toledo, tem direção assinada por Inês Aranha, além de dramaturgia, adaptação e co-direção de Elzemann Neves.  A peça fala sobre a desmedida relação de uma mãe com seu filho que, para recriá-lo aos seus olhos, o conduz ao abismo da corrupção moral.

Minha Mãe – primeira obra de Bataille adaptada para o teatro brasileiro – é uma realização da Cia. NUA – Núcleo de Artes em parceria com a Filmes de Abril, responsável pela produção do espetáculo, que reúne uma equipe de profissionais de primeira linha: Fábio Namatame (figurino), Chris Aizner (cenário), Carmine D’Amore (iluminação) e Fernanda Maia (trilha sonora original).

A história se passa na cidade de Paris, no ano de 1906. Hélène, que perde o marido aos 32 anos, tem a chance de se aproximar mais do filho Pierre, que via no pai um bêbado sem valor. Aos poucos, Hélène se revela e se desnuda para o filho, querendo torná-lo reconhecível aos seus olhos e o conduz a um mundo de vícios, perversidades, erotismo e excessos. Isto o assusta e o seduz na mesma proporção, fazendo gritar a hipocrisia de uma sociedade despreparada para conviver com as diferenças. Pierre passa a admirar a mãe cada vez mais e a viver um intenso conflito interno. A atraente sensação do abismo permeia toda a trajetória dessa mulher, que faz da recriação do filho sua principal obra. 

Em noites regadas a vinho e amantes, Hélène se mostra uma mulher forte e imperativa, capaz de atos de extrema humilhação com o marido, mas também disposta a amar sem medidas. Sua relação com o filho é pontuada por sentimentos de amor e ódio, uma vez que ele é fruto de suas entranhas e também fruto de uma violência sexual sofrida aos 13 anos. Ela se casou com seu agressor, mas ele nunca mais a tocou. Hélène se expõe e se questiona de forma perturbadora, é libertina, mas íntegra consigo mesma. O texto levanta de forma extremada as questões do tabu, do sexo, do incesto.

Segundo a diretora Inês Aranha, a direção explora os conflitos vivenciados por essa mãe que deseja viver a maternidade trazendo o filho para seu universo libertino e erótico para ser amada como a fêmea que é, sem hipocrisias. “As constantes mudanças de estado de espírito da personagem proporcionam dinamismo ao espetáculo. Ela vai tirando seus véus e isto é explorado de forma física, verbal e com uma pertinente pontuação musical”, argumenta Inês, que completa: “A Bia Toledo é muito intensa na interpretação dessa mãe adorável, mas que leva o filho ao abismo por viver no limite e pagar o preço exato por isso”. Para a diretora, a narrativa quase poética de Bataille – ao mesmo tempo muito direta, sem ser chula – é um belo tratado que revela a natureza humana.

A narrativa de Minha Mãe é intimista. Apenas a iluminação e alguns objetos cênicos são suficientes para a ambientação da montagem. A encenação é embasada na interpretação da atriz que confere um profundo conhecimento de Hélène; a construção de partituras físicas e internas conduz o espectador aos caminhos dessa personagem crucial da moderna literatura francesa, sedutora e perversa, passível de contradições e absolutamente reconhecível. Embora a narrativa se desenvolva na Paris de 1906, a caracterização do figurino e do cenário impõe o aspecto contemporâneo e transgressor do texto.

O romance original de Georges Bataille é narrado pelo filho, que constrói a personalidade de Hélène a partir de sua imatura concepção de vida. A adaptação de Elzemann Neves para o teatro teve como desafio dar voz a Hélène, transformando-a no centro da ação, sem descaracterizar a personagem. “Quando li o romance sob a ótica de Pierre, percebi a força de Hélène, que fala mais alto que ele, e resolvi dar voz ativa para ela”, comenta Elzemann.  Minha Mãe é a primeira parte de uma trilogia inacabada do autor. A Última edição do livro no Brasil trouxe alguns fragmentos do que poderiam ser os próximos livros; isso deu a Elzemann uma maior liberdade na adaptação. “Como no livro muita coisa parecia estar por acontecer, na encenação não há uma estrutura muito cronológica ou linear, explorei a questão da memória e o ponto de vista da mãe”, completa. 

Segundo Bataille, “o sujeito é falha, é fenda e é a consciência da negatividade que o impulsiona para a superação de seus limites”. É nesse contexto que a obra original Minha Mãe se insere. A trajetória de Pierre em direção ao descaminho da vida se torna ainda mais peculiar, posto que é conduzida por sua jovem mãe. Ambos vivem num mundo, como afirmou Bataille, cheio de “alegria torturante”, uma alegria cheia de vícios e excessos, mas que – como alegria que é – incomoda uma sociedade pouco afeita às transgressões. A relação visceral que se estabelece entre eles varia entre a loucura e o desejo, o que resulta num fenômeno social transgressor. A determinação de Hélène em conduzir o filho até a verdade do ser humano se mostra transgressora ainda hoje, quando a verdade ainda precisa ser mascarada. A obra de Bataille soa bastante contemporânea, uma vez que dialoga com os novos conceitos de família e erotismo.

Espetáculo: Minha Mãe

Livre adaptação do romance homônimo de Georges Bataille

Adaptação, dramaturgia e co-direção: Elzemann Neves

Direção: Inês Aranha

Atriz: Bia Toledo

Figurino e visagismo: Fábio Namatame

Cenário: Chris Aizner e Pedro Ivo Pisano

Iluminação: Carmine D’Amore

Trilha sonora original: Fernanda Maia

Teatrix – Rua Peixoto Gomide, 1066. Telefone: (011) 3149.4400

Ingressos: R$ 30,00 – Duração: 55 min – Gênero: Drama – Censura: 16 anos

Apresentações: Dias 24 e 31 de outubro (sextas-feiras), à meia-noite

Realização: Cia. NUA – Núcleo de Artes

Produção: Filmes de Abril
TEATRIX:

Rua Peixoto Gomide, 1066. -Tel: (11) 3149 4400
 www.teatrix.com.br

Anúncios

No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: