Cinema Sim – Narrativas e Projeções reflete sobre a relação entre as artes visuais e o cinema

Onze artistas vindos da Alemanha, Coréia do Sul, Espanha, Estados Unidos, Japão, França, Inglaterra e Suíça, além do Brasil, assinam as obras que têm a tecnologia cinematográfica como suporte e poderão ser conferidas em Cinema Sim – Narrativas e Projeções, no Itaú Cultural. A exposição organizada pelo Núcleo de Audiovisual da instituição, apresenta 18 trabalhos que atestam a tendência de aproximação do cinema com as artes visuais. Entre os destaques, You and I, Horizontal III, que o inglês Anthony McCall traz pela primeira vez ao Brasil; e La Peau, último trabalho realizado pelo francês Thierry Kuntzel, antes de sua morte em 2007. Do Brasil, são apresentados vídeos da mineira radicada no Rio de Janeiro Rosângela Rennó e as traquitanas  do brasiliense Milton Marques.

Cinema Sim abre no dia 28 de outubro (com coquetel para convidados) e prossegue para o público do dia 29 do mesmo mês a 21 de dezembro. Além da exposição, será realizado um seminário com artistas e teóricos do Brasil e do exterior para debater o assunto, e uma mostra de vídeos cuja produção também gira em torno dessa temática.

“Não se trata de uma exposição sobre o cinema, mas sim sobre a idéia e o conceito dele, e como os artistas contemporâneos o utilizam nas suas obras”, conta Roberto Cruz, gerente do Núcleo de Audiovisual do Itaú Cultural, em consonância com idéia da convergência do cinema com as artes plásticas. Em suas palavras, é cada vez mais freqüente a presença de uma situação cinematográfica em espaços distintos ao da sala de cinema. “Esta é uma tendência do audiovisual”, aponta ele para ressaltar que a mistura entre o cinema e as artes visuais toma cada vez mais lugar em galerias, museus, mostras de arte contemporânea e espaços dedicados à arte mídia em todo o mundo.

Filmes de luz sólida, narrativas sem fim
Um dos artistas que mais representa tal tendência é o inglês Anthony McCall, que traz You and I, Horizontal III, inédita no Brasil e parte da série Solid Light Films (filmes de luz sólida) realizados pelo artista, cuja trajetória consagrada passa pelo circuito internacional de Nova York, Londres, Paris e Alemanha. Com forte apelo sensorial, esta obra utiliza o foco de luz da projeção para criar um desenho que flutua na sala escura do espaço expositivo. As linhas iluminadas formam um desenho no ar esfumaçado e o espectador pode circular em volta ou no interior delas, como em um sonho.

A instalação La Peau, último trabalho realizado pelo artista e teórico francês Thierry Kuntzel, antes de sua morte em 2007, impressiona ao revelar uma paisagem panorâmica da pele, criada a partir de centenas de fotografias de partes de corpos não identificáveis. Esta imagem é projetada em uma grande tela, muito lentamente e de forma contínua, através do photomobile – máquina especialmente criada para a obra, que exibe uma película de 70mm e revela a epiderme, numa escala ampliada e gigantesca, como se fosse  um grande plano-seqüencia.

Stunned Man (Trilogy of Failure/ Parte II) do alemão Julian Rosefeldt é outro bom exemplo de como o cinema pode criar formas narrativas próprias no espaço expositivo. O filme é exibido simultaneamente em duas telas paralelas e apresentam duas narrativas que traçam situações prosaicas de um personagem em seu apartamento – ele destrói a casa, quebra os móveis, atravessa paredes, surge do teto. Não há sincronia nem linearidade na projeção e o filme não tem princípio, meio ou fim, como as narrativas tradicionais. Deste modo, o espectador tem total liberdade para montar a sua história.

Elementos surrealistas dão o tom na obra do japonês Hiraki Sawa. Na animação digital Going Places, Sitting Down, o artista mostra o interior de uma típica casa inglesa, onde, eventualmente, entra um cavalo de balanço. O personagem inusitado circula poeticamente pelos cômodos ao som de uma trilha sonora que remete às melodias das caixas de música da infância.

Velásquez e suas meninas em movimento
Duas obras terão a exibição em single channel (uma única tela de projeção): 89 Seconds at Alcázar, da americana Eve Sussman e Rufus Corporation; e Now Wait For the Last Year, da inglesa Rachel Reupke. Fundadora da Rufus Corporation – produtora formada por artistas e músicos especializada em projetos especiais em cinema, fotografia e videoarte – Eve mescla filme, vídeo, instalação, escultura e fotografia. Em 89 Seconds at Alcázar, ela entra no universo de Diego Velásquez fazendo uma representação cênica e em movimento da célebre obra As Meninas, menos de dois minutos antes de a obra ser eternizada pelo artista espanhol. Neste vídeo, a artista realiza o desejo de todos os apreciadores desta pintura, de desvendá-la, e convida o espectador a enxergá-la por ângulos jamais observados.

Já as paisagens artificiais de Rachel mexem com a fantasia do espectador ao inserir digitalmente prédios e estruturas arquitetônicas monumentais na capital chinesa, Pequim. Com uma estética de vídeo corporativo, a artista remete a uma paisagem futurista e ao mesmo tempo faz uma referência à iconografia dos cartões-postais e da publicidade dos anos de 1950.

Um dos mais jovens artistas da exposição é o espanhol Rubén Ramos Balsa. Sua carreira está em ascensão no circuito internacional, e suas obras foram exibidas recentemente nas bienais de Veneza e de Madri. No Itaú Cultural ele apresenta Bombillas (lâmpadas). Trata-se de uma instalação que surpreende o espectador. Entre a quase penumbra e o silêncio, o visitante começa a identificar  o som de um sapateado para depois perceber que se trata da projeção dos pés de um homem sapateando dentro de uma lâmpada no teto.

Propondo uma nova percepção da realidade e da natureza, o sul-coreano Yong-seok Oh apresenta Drama No. 3. Nesta obra exibida em duas telas colocadas num ângulo de 90º, o artista cria uma ilusão imagética com dezenas de justaposições de imagens em diversos planos que remetem à estética cubista. Ele participou do New Artist, no espaço Alternative Pool em Seul, em 2005, e desde então participou de diversas mostras coletivas apresentadas na Áustria, Alemanha e China.

Artistas brasileiros, ilusões sensoriais e máquinas de projeção
Entre os brasileiros estão a mineira radicada no Rio de Janeiro Rosângela Rennó e o brasiliense Milton Marques. Ela expõe cinco vídeos da série Frutos Estranhos, com  situações aparentemente triviais – uma criança balançando de cabeça para baixo em uma árvore, uma menina dando uma cambalhota, um homem saltando, uma pessoa mergulhando, um homem nadando. No entanto, a artista edita e anima as cenas digitalmente, desafiando a capacidade de percepção visual do espectador.

Já Milton Marques apresenta três obras que parecem traquitanas movidas por motores elétricos. Através da utilização de caixas de madeira, motores de espremedores de frutas e outros materiais rústicos, ele estabelece uma relação primeira com as experiências cinéticas do início da história do cinema: os princípios mecânicos da ilusão do movimento e os maquinários de projeção.

Indo na mesma direção, o suíço Peter Fischer já criou mais de 40 máquinas de projeção, como Repellus e I Fly II, que poderão ser vistas nesta exposição. Em I Fly II, um tripé, formado por objetos, motor e maquinários exibe a partir de um projetor de slide uma imagem fotográfica. No momento em que a máquina é acionada, gera-se uma bruma de vapor, sobre a qual é projetada a imagem do artista voando. Na obra Repellus, duas pás giram em torno de uma roda de bicicleta, jogando um pó de vidro uma na outra. Um vídeo é projetado nessa espécie de chuva de vidro.

Cinema em debate
Dando continuidade teórica à exposição, o Itaú Cultural organiza, de 30 de outubro a 1º de novembro, o seminário Ainda Cinema. Coordenado pela artista e professora Kátia Maciel, traz participantes de todo o mundo como o francês Raymond Bellour, pesquisador e escritor especializado em cinema e literatura e também um dos fundadores da revista de cinema Traffic; Dominique Païni, crítico de arte e pesquisador das relações entre o cinema e as artes visuais; Mark Nash, diretor do departamento de Arte Contemporânea do Royal College of Art, de Londres; e a americana Liz Kotz, crítica e historiadora de arte. Os palestrantes brasileiros são André Parente, Arlindo Machado e Kátia Maciel. Antonio Fatorelli, Beatriz Furtado e Luiz Cláudio da Costa irão mediar as mesas. Paralelamente ao seminário, haverá duas mesas de debate com 7 artistas participantes da exposição: Anthony McCall, Hiraki Sawa, Eve Sussman, Rachel Reupke, Yong-seok Oh, Milton Marques e Rubén Ramos Balsa.

Mostra de filmes
Durante a exposição será realizada a mostra audiovisual O Visível e o Invisível que apresenta, de 18 a 23 de novembro, a mais recente produção de vídeos e filmes realizados por artistas contemporâneos. Com curadoria de Berta Sichel, diretora do departamento de audiovisual do Museu Reina Sofia, de Madri, a mostra reúne 16 obras experimentais que extrapolam a própria definição dos gêneros cinematográficos.

O filme que abre a programação é Là-Bas, da belga Chantal Ackerman. A cineasta, diretora de mais de 40 filmes, é também roteirista, atriz e produtora. Para fazer este filme, ela viajou até Israel, a pedido do produtor Xavier Carniaux, e alugou um apartamento para captar a atmosfera desta cidade, cujo cotidiano é repleto de situações imprevisíveis. O resultado é uma obra sobre o não-pertencimento a um lugar e ao mesmo tempo sobre a possibilidade de se enraizar no espaço. Na programação estão, ainda, os diretores Antoni Muntadas,  Deimantas Narkevicius, Erik Schmidt, Fiona Tan, Gustav Deutsch, Hito Steyerl, Jenny Perlin, Julian Rosefeldt, Marine Hugonnier, Maya Schweizer e Clemens Von Wedemeyer, Jackeline Salloum, Patricia Esquivias, Sean Snyder, Sophie Fiennes, Shelly Silver e Ursula Biemann.

SERVIÇO
Cinema Sim – Narrativas e Projeções
Dia 28 de outubro, terça-feira, abertura para convidados
Abre ao público de 29/10 a 21/12

De terça a sexta, das 10h às 21h
Sábs., doms. e feriados, das 10h às 19h

Entrada franca
Estacionamento com manobrista: R$ 8,00 a primeira hora; R$ 4,00 a segunda hora; e R$ 2,00 por hora adicional
Estacionamento gratuito para bicicletas
Acesso para deficientes físicos
Ar condicionado

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô
Fones: 11. 2168-1776/1777
www.itaucultural.org.br
atendimento@itaucultural.org.br

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